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Quando a geada ameaça a planície, este meu arrebitado nariz congela. A geada é minha razão ser. A História é meu escudo e minha lança. À espera de um longo e rigoroso inverno, escrevo. Eu sou Nariz Gelado.
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Quarta-feira, Março 12, 2003
3/12/2003
Nobel para Saddam
Tio Saddam está deixando de realizar uma cartada de mestre: a renúncia poderia ser seu grande tapa de luva...Sua forma elegante, irônica e humanitária de desmantelar o bilionário plano bélico de Bush. De quebra, Tio Saddam seria sério candidato ao Nobel do ano que vem.
Se não renuncia, é porque faz parte daquele raro grupo de homens que preferem a carnificina de seus semelhantes à perda do amor-próprio. Dá prioridade ao orgulho muçulmano em detrimento da vida de milhares de homens, mulheres e crianças iraquianas. Nem pensar em ter sua honra "manchada" pelo estigma da desistência. Prefere, antes, sacrificar seus inocentes conterrâneos.
Alguém deveria tomar providências contra homens deste tipo.
Um momento...telefone.
Um amigo ligou para avisar que Estados Unidos e Iglaterra estão justamente tentando tomar as devidas providências. Acontece que estão sendo impedidos por outros candidatos ao Nobel da Paz.
Fazer o quê?
São ossos da vaidade.
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Quinta-feira, Março 06, 2003
3/6/2003
Atrás do escudo
Do ponto de vista psicológico, não sei se existe muita diferença entre os "homens-bomba" e este pessoal que está indo ao Iraque servir de "escudo humano". Para falar a verdade, acho que os últimos são mais sadomasoquistas que os primeiros. O "homem-bomba" decide "quando" e "onde". Já o "escudo humano" se dispõe à ficar em suspenso, aguardando uma bomba que ele não sabe se cai - ou quando cai.
É claro que os "escudos" estão lá para defender vidas - e não tirá-las. De fato, daria até para desenvolver uma teoria metafísica, a partir da qual defenderíamos a geração espontânea dos "escudos" com base na lei da polaridade: a existência de suicidas no "lado escuro da força" acabou impulsionando o surgimento de sua contraparte pacífica.
E não há dúvidas de que o princípio que move estas duas polaridades é o mesmo: a crença de que vale à pena morrer por uma boa causa. Não morrer anonimamente, como parte de um numeroso exército mas - repare, leitor - morrer com direito à glórias e recompensas.
É de conhecimento público que as famílias dos "homens-bomba" são generosamente recompensadas. Já ninguém parece estar prestando muita atenção na quantidade de políticos, assessores de políticos e jornalistas no contingente de "escudos". Ninguém parece ter reparado que este pessoal sempre dá um jeitinho de avisar a imprensa de sua partida ao Iraque. Isto tem garantido alguns louros antecipados, que incluem tanto as entrevistas às vésperas da viagem como a certeza de que no mínimo a mídia paroquial vai acompanhar a saga do sujeito em terras de "Tio Saddam".
Obviamente - e ao contrário do que ocorre com o terrorista - o "escudo" só receberá sua recompensa se sobreviver: jornalistas anônimos serão transformados, do dia para a noite, em "correspondentes de guerra"; políticos receberão votos; assessores de políticos poderão almejar uma candidatura baseada na fama súbita. E - outro interessante paradoxo - se a recompensa ao terrorista está diretamente ligada ao êxito operação, aos "escudos" não importa muito o resultado da coisa: rolando ou não a guerra, eles só precisam sobreviver para desfrutar do prêmio.
Em ambos os casos, a conclusão é de que não se trata uma atitude altruísta, impulsionada por amor a uma causa. A suposta causa é apenas o meio pelo qual se atinge alguns fins de ordem bem pessoal
A História deu um nome para homens que, diante de uma situação bélica, arriscavam a vida em prol de garantir benefícios pessoais. Chamava-os mercenários.
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Quarta-feira, Março 05, 2003
3/5/2003
Momo e os professores
Devo dizer que, na última década e meia, meus carnavais foram regados à livros, filmes e documentários. Mas o velho rito ainda algum exerce algum fascínio: os enredos, que não raro se apoiam em fatos históricos. E como não tenho paciência para acompanhar toda a evolução, volta e meia me pego zapeando para ver os primeiros passos das escolas na Marquês de Sapucaí , só para ver do que se trata o enredo.
Destes longos anos de observação, concluo que as escolas deveriam contar com a orientação de professores do ensino fundamental na elaboração de seu espetáculo máximo. Não - veja bem, caro leitor - para garantir qualquer pretensa ambição de fidelidade histórica. Mas para assegurar que nenhum enredo ultrapassasse o limite mental de uma quinta série - equivalente ao poder de compreensão de qualquer brasileiro depois de muitas Kaisers.
Tal atitude pouparia muito trabalho aos comentaristas, que não mais precisariam se martirizar para nos fazer entender que "a bateria vem representando as forças da luz em combate constante com as trevas que habitam o magma interior da psiqué humana".
Só por isso, este ano eu daria o primeiro lugar para a escola que fez o mais simplório, pedagógico e carnavalesco dos enredos: pirataria. Não lembro o nome da escola ou do enredo, mas a coisa toda foi de uma habilidade irrepreensível. Todo mundo, mesmo depois de uma Kaiser ou duas, sabe identificar papagaio, whisky paraguaio e Capitão Gancho.
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